‘Piora da expectativa na economia está próxima de virar fato consumado’, diz economista Mendonça de Barros
O economista José Roberto Mendonça de Barros, sócio-fundador da consultoria MB Associados, alertou sobre a deterioração do cenário econômico no Brasil, em entrevista ao Estadão.
Ele destacou que a inflação voltou ao radar, o dólar mais alto pressiona preços e que a piora das expectativas está prestes a se consolidar como um problema estrutural.
Além disso, a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos é vista como um agravante para economias emergentes como a brasileira.
Inflação e Piora das Expectativas
Mendonça de Barros manifestou preocupação com o impacto do câmbio e da inflação, que atualmente está próxima de 5%. Segundo ele, a alta do dólar já está sendo repassada para os preços, o que pode transformar a inflação em um problema de longo prazo.
"O problema é a inflação – e a inflação derruba a avaliação de qualquer governo."
Ele acredita que o Brasil está próximo de um ponto em que a deterioração das expectativas se torna um fato consumado, prejudicando tanto a confiança interna quanto externa.
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Impactos da Eleição de Trump
A vitória de Donald Trump é apontada como uma má notícia para o Brasil, com expectativas de alta nos juros americanos e valorização do dólar. Esses fatores devem atrair recursos financeiros para os EUA, deixando menos capital disponível para países emergentes. Mendonça de Barros descreveu o cenário como um "aspirador global", que dificulta ainda mais a recuperação econômica no Brasil.
"Não é boa para os Estados Unidos, não é boa para o mundo, e não é boa para o Brasil."
Desaceleração Econômica em 2024
O economista prevê uma forte desaceleração da economia brasileira no próximo ano, influenciada por três fatores principais:
1. Menor estímulo externo: Redução nos preços de commodities e impacto da política econômica dos EUA.
2. Alta dos juros internos: Taxas reais próximas de 7%, o que reduz o crédito e a atividade econômica.
3. Redução do impulso fiscal: Com menor capacidade do governo de estimular a economia.
O crescimento do PIB em 2025 está estimado em apenas 1,8%, segundo a consultoria.
Necessidade de Ajuste Fiscal
Para Mendonça de Barros, o ajuste fiscal é imprescindível para controlar o câmbio, reduzir a inflação e melhorar as expectativas. Ele acredita que o pacote fiscal deveria cortar entre R$ 40 bilhões e R$ 50 bilhões em gastos para acalmar o mercado. Contudo, alertou que atrasos ou medidas insuficientes podem levar a um cenário de dólar a R$ 6 e inflação acima de 5%.
"Se o pacote frustrar, a gente pode ter dólar a R$ 6 e inflação a 5%? Não tenho dúvida nenhuma."
Riscos para o Banco Central
Com a transição de comando no Banco Central, Mendonça de Barros vê desafios no futuro próximo, especialmente após a saída de Roberto Campos Neto. Apesar disso, ele demonstrou confiança na capacidade técnica da instituição e no próximo presidente, Gabriel Galípolo, de manter a estabilidade.
Cenário Binário para o Governo
O economista classificou o cenário atual como "binário":
1. Seguir o caminho do ajuste fiscal e buscar o grau de investimento, como defendido pelo ministro Fernando Haddad.
2. Continuar na trajetória que já deu errado, caracterizada por descontrole fiscal e alta inflação.
"É impressionante como o governo ainda tem dúvida. Eles já deveriam saber para onde ir."
Mendonça de Barros reforça que, sem um ajuste fiscal robusto e ações concretas para conter a inflação, o governo Lula enfrentará dificuldades crescentes. Além disso, o impacto da eleição de Trump e a desaceleração global tornam o cenário externo ainda mais desafiador, exigindo uma postura firme e pragmática na condução da política econômica brasileira.
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